Justiça americana decide que Google violou legislação de proteção à livre concorrência

Teor de denúncia(1) apresentada ontem ao Cade (Conselho Admnistrativo de Defesa Econômica:

Em decisão recente da Corte Distrital de Columbia – Case no. 20-cv-3010 (APM) -, foi decidido que o Google violou a legislação americana sobre defesa da concorrência, ao pagar dezenas de bilhões de dólares por ano a empresas que distribuem mecanismos de busca – Apple, LG, Motorola, Samsung, AT&T, T-Mobile, Mozilla, Opera, UCWeb e Verizon – para garantir que o seu mecanismo de busca fosse o único a ser visualizado pelos consumidores, pois o apresentava como padrão em um dispositivo.

Colocando o seu mecanismo de busca na frente dos consumidores, impossibilitou, na prática, que seus rivais, como o Bing ou DuckDuckGo, tivessem chance de competir, pois a maioria dos consumidores nunca altera o mecanismo padrão de pesquisa do seu navegador da Internet.

Em outras palavras, a Google pagou a parceiros para impedir a distribuição de mecanismos de busca rivais, os quais, em razão disso, não puderam ser usados na escala necessária para o seu melhoramento: quanto maior o número de usuários, mais o mecanismo de busca aprende e ajusta os resultados, de forma a produzir um serviço cuja qualidade é suficiente e crescentemente elevada para se tornar competitivo.

Com isso, dificultou em muito que seus concorrentes participassem num mercado no qual, em 2021, anunciantes pagaram 150 bilhões de dólares para alcançar usuários de mecanismos de pesquisa, tanto que, em 2020, quase 90% de todas as pesquisas foram feitas no Google, chegando a 95% em dispositivos móveis.

Essa conduta evidentemente se repete no Brasil e se manterá inalterada entre nós, já que a decisão judicial referida acima terá efeito apenas nos Estados Unidos.

Mas também aqui demanda repressão, em razão de estar tipificada no art. 36, I da Lei nº12.529/2011, por produzir o efeito de dominar mercado relevante de serviços, demandando, em razão disso, a intervenção do CADE.

(1) Protocolo nº08700.005704/2024-79

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O impacto da obsolescência planejada no meio ambiente

Em 23 de dezembro de 1924, foi criado, na Suíça, o Cartel Phoebus. Unindo as grandes fabricantes de lâmpadas da época – General Eletric, Osram e Compagnie des Lampes, entre outras -, tinha o objetivo de limitar a vida útil das lâmpadas para cerca de 1.000 horas. Com isso, obtiveram um aumento das vendas e o controle do mercado, que possibilitou a manutenção de preços altos. Mais importante ainda, estabeleceram o precedente para outros produtos industriais, deixando de lado o padrão de qualidade máxima que era perseguido pelas indústrias de então.

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O contrato de seguro em tempos de calamidades naturais

Há poucos dias, a imprensa noticiou que as seguradoras não estavam indenizando danos causados pelas inundações que atingiram  o Rio Grande do Sul há algum tempo. Consultado, o Sindicato dos Corretores de Seguro (Sincor – RS) declarou que os prejudicados deveriam verificar se os seus contratos previam essa cobertura. (Zero Hora, 21/09/2023, pág. 14)

Aparentemente, os segurados estão sendo surpreendidos com a notícia, dada pelas seguradoras, de que a cobertura prevista em seus contratos era bem mais limitada do que supunham.

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Diesel: mais nuvens escuras no horizonte?

Interessante artigo publicado no site Oilprice revela que, por uma variedade de fatores, “o aperto no fornecimento de petróleo bruto, gás e carvão estava começando a se espalhar para os derivados de petróleo, principalmente os destilados médios, entre os quais o mais popular é o diesel.”

Os estoques estão baixos em todo o mundo e analistas falam que “que o governo poderá ter de recorrer ao racionamento de gasóleo a partir do próximo mês devido ao estado do mercado e à proibição das importações de petróleo russo, que incluem o gasóleo. A Rússia fornecia um terço do diesel importado do Reino Unido antes da proibição.”

Essa situação começa a ser comentada na imprensa brasileira, mas o que não está sendo comentado é que a nossa situação é muito ruim em razão de uma decisão de investimento da Petrobrás pouco comentada: a nossa produção de petróleo seria suficiente para abastecer o mercado interno tanto em gasolina quando em óleo diesel, mas as nossas refinarias não estão capacitadas a a trabalhar com o petróleo brasileiro, como informa matéria publicada na BBC:

O que o país extrai, na teoria, seria suficiente para atender à demanda nacional, até porque se produz mais do que se consome.

“’Mas nossa autossuficiência é nominal’, diz a doutora em Planejamento Energético e coordenadora de pesquisa do centro de estudos FGV Energia Fernanda Delgado à BBC News Brasil. ‘Existe um descasamento entre a tecnologia para refinar e o tipo de petróleo que temos.’

“’A resposta é bem simples: somos numericamente autossuficientes, produzimos mais volume do que consumimos. Mas os produtos não são os mesmos. Nosso parque de refino ainda não é capaz de refinar grande parte do óleo produzido nem de suprir a demanda interna por outros derivados’, responde, por e-mail, o professor Paulo Couto, coordenador do LRAP (Laboratório de Recuperação Avançada de Petróleo), da Coppe/UFRJ e professor da Escola Politécnica da universidade.

“Assim, exportamos óleo e importamos combustíveis e derivados. Por isso ainda estamos atrelados ao mercado internacional.”

Essa situação nunca foi interessante, do ponto de vista estratégico e da segurança energética, o que era inteiramente conhecido pelos gestores da Petrobrás – que são definidos pela União Federal -, que sempre preferiu focar na produção de petróleo, em prejuízo do refino.

Esse atrelamento ao mercado internacional não tinha maiores repercussões em outros tempos, mas agora pode se mostrar catastrófico.

Porto Alegre, 24 de março de 2022.

Carlos Alberto Etcheverry

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Brasil, paraíso da usura (1)

“Após o país bater recorde de endividados em 2021, com cerca de 70% das famílias comprometidas com dívidas, uma pesquisa realizada pela Acordo Certo, fintech do Grupo Boa Vista, mostrou que atualmente 88% dos consumidores brasileiros possuem dívidas ativas. Desses, 57% afirmam que passam por dificuldades na hora de suprir todas as suas necessidades básicas.

“Segundo um levantamento da equipe de Renda Fixa da XP, que utilizou dados do Banco Central, a quantidade de endividados subiu em 21% entre os anos de 2020 e 2021. Por enquanto, o crescimento de 2021 para 2022 é de 4%, aponta Acordo Certo.

“Os dados também representam como o acesso ao crédito segurou a economia do país durante esses anos de pandemia, onde muitas famílias sofreram com queda na renda e tiveram de tomar empréstimos pessoais para conseguir pagar aluguéis, mercados e contas.” (Yahoo!Notícias)

Preocupado com o fato de que os orçamentos familiares comprometidos com o pagamento de dívidas tenha impacto na recuperação econômica brasileira – pois o consumo familiar é um dos maiores motores da economia -, o ministro Paulo Guedes apresentou uma proposta:

“Para aliviar um pouco a pressão do endividamento, o ministro da Economia, Paulo Guedes, quer liberar a utilização do saldo do FGTS para o pagamento de dívidas.
‘Há várias iniciativas que podemos ter até o fim do ano que devem ajudar a economia a crescer. Podemos mobilizar recursos do FGTS também, porque são fundos privados. São pessoas que têm recursos lá e que estão passando por dificuldades. Às vezes o cara está devendo dinheiro no banco e está credor no FGTS. Por que que não pode sacar essa conta e liquidar a dívida dele do outro lado?’ disse o ministro.” (idem)

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Presídio Central terá galeria para estrangeiros

“[Presídio] Central terá galeria para estrangeiros”

É o título da matéria que saiu no jornal Zero Hora algum tempo atrás, noticiando que estavam em fase final de acabamento as obras de melhoria no pavilhão “A” do Presídio Central de Porto Alegre, que será utilizado para abrigar, durante a Copa do Mundo, exclusivamente presos estrangeiros.

Em caráter absolutamente extraordinário para o local, essa galeria terá trinta e duas celas, cada uma com “cama de concreto, pia, vaso sanitário e chuveiro”. Luxos, evidentemente, que não estão sendo disponibilizados aos aborígenes, mas que poderão ser usufruídos – se sobrarem vagas, imagino – por turistas de outros Estados.Merece elogios incondicionados a iniciativa dos administradores do nosso sistema prisional. É inconcebível, beira o estapafúrdio, forçar nossos visitantes estrangeiros a conhecer aquele que é, incontestavelmente, o pior presídio brasileiro. Insalubre, fétido, dominado por gangues, a completa antítese do que deveria ser uma instituição penal voltada para a recuperação e ressocialização dos presos. Se alguém quisesse fazer um paralelo com alguma outra instituição social, mais provavelmente escolheria um campo de concentração do que um presídio.

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O ministro Celso de Mello e o elogio à tolerância

Há alguns dias, o plenário do Supremo Tribunal Federal foi, mais uma vez, sacudido por violento bate-boca entre seus componentes: o  ministro Barbosa acusou seu colega Lewandowski de fazer “chicana” em favor dos condenados do “mensalão”.
Na sessão seguinte, o acusador se recusou a fazer uma retratação ou a pedir desculpa, o que levou o decano da corte, Celso de Mello, a fazer uma manifestação em desagravo a Lewandowski:

“Aquele que profere voto vencido (…) não pode ser visto como um espírito isolado nem como uma alma rebelde, pois, muitas vezes, como nos revela a História, é ele quem possui, ao externar posição divergente, o sentido mais elevado da ordem, do direito e do sentimento de justiça, exprimindo, na solidão de seu pronunciamento, uma percepção mais aguda da realidade social.”

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Taxa de abertura de crédito/cadastro: a saga continua

Há quase dez anos, a 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul começou a declarar a nulidade da taxa de abertura de crédito, também conhecida como taxa de cadastro, cobrada por praticamente todas as instituições financeiras do Brasil a título de remuneração pela pesquisa cadastral de candidatos a concessão de crédito.Tratava-se então de decisões pioneiras, que reconheciam a abusividade dessa cobrança sob variados fundamentos.
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O STF na era do Big Brother

Noticia a Folha de São Paulo que os ministros do STF, no processo do mensalão, estão divididos em relação às acusações feitas contra o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu:

“Parte dos ministros ouvidos pela Folha afirma que é muito difícil imaginar que o ex-tesoureiro Delúbio Soares ou o ex-presidente do PT José Genoino tenham idealizado e negociado sozinhos a arrecadação de tantos recursos. Na avaliação deles, precisava-se de alguém com muito poder no governo federal.
“Alguns ministros consideram que as provas e os depoimentos mostram que Dirceu, de fato, articulava o apoio político no Congresso, fazia reuniões no Palácio do Planalto, mas que isso não quer dizer que se tratava necessariamente de uma série de atos ilícitos.
“Para eles, seria mais fácil provar o crime se os encontros com Dirceu ocorressem em locais privados.”

Esse o resumo da notícia, cujo teor não deixa margem para dúvidas: os ministros da nossa mais alta corte não só julgam seus processos em sessões públicas, transmitidas pela tevê, durante as quais debatem de forma acesa questões jurídicas, a ponto, às vezes, de perder a paciência e partir para agressões verbais, como também gostam de cometer indiscrições  – que, por falar nisso, caracterizam falta funcional – com o quarto poder, a imprensa.Esse não é o único registro sobre o comportamento humano, demasiadamente humano, dos ministros do STF. Quem se der ao trabalho de fazer uma análise dos registros diários do que tem ocorrido ao longo do julgamento do mensalão irá descobrir, entre outras coisas, trocas de farpas, críticas a colegas transmitidas a jornalistas, bate-bocas diversos, reclamações, ameaças de abandono do plenário. Não faltam, também, as indiscrições cometidas pelos “capinhas”, que são os assistentes de plenário. Através deles, ficou-se sabendo de discussão acalorada entre Gilmar Mendes e Marco Aurélio, na qual a palavra mais gentil teria sido “moleque”.
Toda essa exposição ao público tem sido elogiada, de maneira geral, como um exemplo da transparência que deve existir na administração pública.
De que outra forma o povo descobriria que os integrantes de nossa corte suprema são “gente como a gente”? Ou seja, como todo mundo, ocasionalmente, rudes, mal-educados, grosseiros, intempestivos, descorteses, desleais, imprevisíveis etc., etc., etc…
Tudo isso a denotar que, aparentemente, tomaram um certo gosto pela exposição pública, ao vivo, com som e imagem, em rede nacional.
A persistir esse padrão de transparência, não soaria descabido imaginar que as coisas que se passam no STF possam perfeitamente se confundir com uma espécie peculiar desses programas de “reality show”, a exemplo do “Big Brother” e da “Fazenda”. Talvez até com o direito de o povo escolher quem deve ser eliminado…

Porto Alegre, 28 de agosto de 2012.

Carlos Alberto Etcheverry

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Usura à brasileira

Na Itália, uma maxi-operação da Guardia di Finanza de Alessandria prendeu três pessoas de Cittanova, em Reggio Calabria, acusadas de haver praticado o crime de usura contra concessionárias de automóveis, imobiliárias, agricultores e comerciantes. A investigação foi coordenada pela Direção Distrital Anti-Máfia de Turim.

A notícia sobre o resultado da operação policial acrescenta, ainda, que os criminosos emprestavam dinheiro a taxas de 30% ao ano, podendo atingir, em alguns casos, até 130% ao ano.O crime de usura, na Itália, é punido com reclusão de um a seis anos e multa de 5.000,00 a 30.000,00 euros.
O delito estará configurado, no que diz respeito ao empréstimo de dinheiro, sempre que a taxa de juros ultrapassar o valor máximo estabelecido pelo governo italiano, que compreende taxas, impostos e qualquer outra despesa que a criatividade empresarial possa inventar. Essa taxa tem girado em torno de 25% ao ano. Na forma qualificada, que se verifica, por exemplo, se o réu age no exercício de atividade profissional, bancária ou de intermediação financeira mobiliária, a pena sofre aumento de um terço.

E não é apenas na Itália que as taxas de juros sofrem limitação. O mesmo ocorre na França e na Suíça, por exemplo, países que ninguém pode acusar de serem anticapitalistas.

Nem é preciso dizer que nossa situação é bem diversa. Aqui, as instituições financeiras podem tudo, como bem ilustra o caso da administradora de cartão de crédito Aura, referida em artigo anterior, que estava cobrando a inacreditável taxa de juros de quase mil por cento ao ano, sem problemas de qualquer ordem com nenhum ramo do poder público, tanto quanto sei.

O máximo a que se chegou aqui, na contenção de abusos nessa matéria, consistiu na pressão exercida pela presidente Dilma sobre as instituições financeiras para que baixassem as taxas de juros, de forma a possibilitar o aumento das vendas a crédito, com o conseqüente reaquecimento da economia. A despeito de alguns resmungos, a iniciativa governamental produziu algum resultado, embora, de quarenta instituições listadas no site do Banco Central,((http://www.bc.gov.br/fis/taxas/htms/20120620/tx012050.asp, visitada em 26.07.2012, às 10h05min.)) vinte e duas estivessem, em 06 de junho do corrente, cobrando taxas superiores a 30% ao ano no financiamento à aquisição de bens, com duas delas ultrapassando o patamar dos 130% ao ano.

Um êxito relativo, como se vê, mas convém não exagerar na pressão: e se as instituições financeiras deixarem de contribuir para o financiamento das campanhas eleitorais e de congressos em paraísos à beira-mar?

Porto Alegre, 26 de julho de 2012.

Carlos Alberto Etcheverry

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