Em artigo publicado na Folha de São Paulo, o romancista Louis Begley faz algumas reflexões interessantes sobre o tempo e sua relação com o trabalho:
“(…) Sem que eu peça, alguns dias depois do fim do mês o computador me envia uma lista de tudo o que eu consegui fazer nesse mês e ao longo do ano até esta data. É como se um fazendeiro mantivesse sua vaca leiteira informada sobre a quantidade de galões produzidos, exceto que a qualidade do leite de uma vaca bem nutrida e com boa saúde é sempre igual, o que não se pode dizer do vigor e da imaginação das ideias de um advogado.
“E essa incerteza gera uma ansiedade que a vaca jamais sentiu: será que essas horas foram bem aproveitadas e o dinheiro que o cliente pagou, honestamente ganho? Quanto a esta última pergunta, a gente recebe alguma ajuda: para cada ano, há um número estabelecido de horas que cada um deveria ter transformado em ouro. Este número se chama ‘target’, ou ‘alvo’, mas ninguém se engana; na verdade, é um mínimo. À medida que a gente envelhece, o alvo vai se reduzindo. O que é muito bom, desde que ainda haja clientes querendo trabalhar conosco. E, se não houver, qual deveria ser nossa atitude? O que pensar da realidade supostamente refletida na diminuição do mínimo?
“Talvez se tenha conquistado o direito de trabalhar menos. Mais provavelmente, trata-se de uma decisão pejorativa sobre a energia e a capacidade de resistência do velhinho, que já não são mais as mesmas, assim como seu cabelo ficou mais ralo e os dentes fracos. Essas estatísticas de lucro e vergonha não são tornadas públicas para todos os colegas, mas há aqueles que sabem se você é uma vaca premiada ou não, merecendo cada centímetro quadrado de sua confortável cocheira aquecida e cada fardo de feno no jantar.”
A transposição da analogia com o reino animal para o nosso meio apresentaria resultados igualmente interessantes – embora fosse mais adequado utilizar como modelo, em nosso caso, os burros de carga -, bem como uma comparação entre a situação do romancista e a dos juízes.