A IA, os juízes e o brinco sussurrante (3)

O que a IA é e o que ela não é

Conta-se que, em 1787, a Imperatriz Catarina II planejou uma viagem à Crimeia, que fora anexada ao império russo poucos anos antes.

Segundo a lenda, o príncipe Potemkin, que governava a província, ordenou a construção de fachadas pintadas ao longo das margens do rio Dnieper, que simulavam a existência de aldeias, de forma a esconder a pobreza da região e impressionar a imperatriz. Essas fachadas eram rapidamente desmanteladas e reerguidas mais adiante, no trajeto percorrido pela governante.

O objetivo desse embuste era criar um simulacro de poder e prosperidade. Atualmente, utiliza-se o vocábulo “Potemkin” como metáfora representativa de uma farsa ou fachada destoante da realidade, geralmente relacionada a uma determinada situação econômica ou política.

Estudiosos e observadores da inteligência artificial passaram a usar o termo para descrever o tipo de compreensão que ela tem: não se trata realmente de compreensão, mas de imitação da compreensão humana.

É de extrema importância a compreensão desse tipo particularíssimo de compreensão, se a ela os seres humanos estão cada vez mais terceirizando suas capacidades de reflexão profunda.

A IA opera como se fosse um ser humano que tivesse lido o mais próximo que se possa imaginar de todos os livros do mundo.

Mas ela faz isso sem realmente compreender o significado desses livros, com a finalidade, determinada por algoritmos, de fazer previsões estatísticas.

Todo texto que a IA gera é uma previsão estatística. Ela mistura e recombina padrões que viu milhões de vezes nos dados com que foi alimentada (textos da internet, livros, artigos etc.). Por isso, ela consegue produzir coisas que parecem novas — um artigo, uma poesia ou um plano de negócios.

Mas não há intencionalidade, compreensão ou criatividade genuínas – apenas extrapolação estatística de padrões passados. Nada do que a IA produz é verdadeiramente original: são apenas recombinações engenhosas. É claro que essas recombinações são capazes de causar maravilhamento, pois resultam do processamento de uma massa absolutamente fantástica de dados de todo tipo, dos quais uma mente humana não poderia tomar consciência nem mesmo se tivesse várias existências.

Quando se afirma que a matéria-prima das recombinações são padrões passados, isso significa informações já criadas por humanos. O mundo da IA é o passado. Disso resulta a sua incapacidade para a divergência ou a inovação radical: aquilo para o que não há exemplo não pode dar origem a antecipações ou à criação de algo novo.

O homem, por sua vez, está inserido num mundo social e físico, em frequente atrito consigo mesmo e com os outros, insatisfeito com sua condição nesse entorno, sentindo frio, cansaço e frustrações, experienciando sentimentos de toda ordem: paixões, raiva, empatia, revolta…

Não é ligado ou desligado, nem age ou se comunica apenas quando provocado por terceiros. Em suma, tem consciência de si mesmo e capacidade de agir e de interferir no curso de sua trajetória histórica.

Diante disso, como pensar que correlações estatísticas possam substituir a responsabilidade de decidir e de enfrentar, quando necessário, as inevitáveis mudanças das condições sociais?

Porto Alegre, 23 de abril de 2026.

Carlos Alberto Etcheverry

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