Cícero e os excessos do quarto poder

“Mas ele chegou até a ler publicamente cartas que afirmava ter recebido de mim, homem desprovido de civilidade e ignorante das regras da convivência humana. Pois quem, conhecendo minimamente os costumes das pessoas de bem, alguma vez tornou pública e leu diante de todos uma carta que lhe fora enviada por um amigo, apenas porque entre ambos surgira alguma desavença?

“Que outra coisa é isso senão suprimir da vida a própria convivência humana, suprimir as conversas entre amigos ausentes? Quantas brincadeiras costumam haver nas cartas que, se levadas a público, pareceriam deslocadas [inepta, no texto em latim1]! Quantas coisas sérias nelas se escrevem que, ainda assim, de modo algum devem ser divulgadas!”2

Neste trecho famoso da Segunda Filípica, Marco Túlio Cícero critica Marco Antônio por ter lido publicamente, no Senado, cartas particulares que ele próprio lhe enviara.

Não se tratava propriamente de defesa da privacidade ou de censurar uma indiscrição. Para Cícero, a comunicação privada pressupõe confiança e violar essa confiança compromete as próprias condições da convivência humana. Marco Antônio teria violado não uma regra jurídica específica, mas um dever decorrente da humanitas, entendida esta como civilidade e respeito às normas da vida em comum.

Cícero tinha bem presente que tornar público o que se passara no contexto privado não significava revelar conteúdo intrinsecamente pueril ou tolo: a própria divulgação, descontextualizando o conteúdo epistolar, conduzia a esse resultado. Enfatizo: a divulgação não revelava uma inadequação preexistente: ela, na verdade, a produzia.

Este episódio histórico me veio à mente quando li, há poucos dias, artigo publicado na revista Piauí no qual são descritas as interações de Vorcaro com o Chatgpt, que totalizaram 151.3

Que paralelo se poderia fazer entre o texto transcrito acima e a reportagem da Piauí?

Bem, a revista não se limitou às 57 interações relativas ao Banco Central, à crise do Banco Master e ao mercado, as quais, de fato considerados em conjunto com outras provas, podem ajudar a reconstituir acontecimentos relevantes para a investigação.

O artigo também revela o teor de algumas das outras 94 interações, nenhuma delas, aparentemente, relacionada com os fatos investigados e de natureza estritamente pessoal.

O artigo ridiculariza algumas dessas interações – não vou reproduzi-las aqui – como se fossem intrinsecamente ridículas, o que elas não são. É a divulgação pública, em tom jocoso, que, descontextualizando-as, produz esse resultado.

A divulgação de qualquer trivialidade privada pode torná-la embaraçosa, mas o embaraço é efeito da operação jornalística, e não propriedade do conteúdo original.

Talvez fosse o caso de perguntar se as interações do autor com o seu assistente pessoal de IA sobreviveriam ao teste do ridículo e do jocoso, se divulgadas aos seus leitores.

Porto Alegre, 23 de outubro de 2026.

Carlos Alberto Etcheverry

1 O latim ineptus não significa primariamente “tolo” ou “ridículo”, mas “não-ajustado”, “fora de lugar” (de in- + aptus, “ajustado, adaptado”).

2 Philippica II, capítulo 4, §7º: https://www.thelatinlibrary.com/cicero/phil2.shtm

3 https://piaui.uol.com.br/web/daniel-vorcaro-celular-chatgpt/?utm_source=chatgpt.com

Esta entrada foi publicada em Artigos e marcada com a tag , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.