Bets no RS: quando o Estado tenta lucrar, ele também, com o vício

O governo do Rio Grande do Sul pretende explorar bets, sob o argumento de que a regulamentação permitirá controle, proteção à saúde pública e incentivo ao “jogo responsável”.* A tese tenta parecer sedutora, mas ignora uma realidade sinistra: o poder público já lida diariamente com as consequências negativas das apostas feitas nas bets que operam em âmbito nacional.

São economias familiares destruídas, endividamento crônico, violência doméstica e até suicídios. Trata-se de custos que recaem sobre o SUS, a assistência social, a segurança pública e as comunidades. Essa conta é paga quase exclusivamente pelo poder público, em todas as esferas.

Assumir o papel de explorador do vício do jogo não eliminará nem diminuirá esse passivo. Ao contrário, tenderá a ampliá-lo ao conferir legitimidade institucional, publicidade e escala a um modelo de negócio que depende estruturalmente da perda recorrente por parte dos jogadores. As bets, pela forma como são operacionalizadas – estão ao alcance da mão o tempo todo e oferecem resultados instantâneos -, têm como objetivo criar o vício do jogo.

É necessária muita ingenuidade para acreditar que a regulamentação pelo Estado será capaz de evitar o jogo compulsivo, que é um transtorno psiquiátrico de controle de impulsos (CID F63.0). Como será combatido? Com apelos ao “jogo responsável”? Slogans publicitários?

Na verdade, o mesmo Estado que acolhe vítimas do jogo compulsivo passará a arrecadar com sua expansão. O conflito ético, aqui, é evidente, cabendo a pergunta final: é admissível transformar sofrimento social em fonte regular de arrecadação?

Porto Alegre, 29 de janeiro de 2026.

Carlos Alberto Etcheverry

*Zero Hora, 28/01/2026, p. 06.

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